Diário de Notícias 27/7/99  
RoboCup99 Futebol para Robôs
Três equipas portuguesas participam a partir de hoje, em Estocolmo, numa competição muito especial: o RoboCup99, uma taça mundial de futebol entre robôs. A par de grupos universitários de países tradicionalmente fortes, a Faculdade de Engenharia do Porto, a Escola de Engenharia da Universidade do Minho e o Instituto Superior Técnico procuram um bom resultado final




Devagar em direcção à baliza
Este é o lema das duas equipas do Porto que jogam no RoboCup99, em Estocolmo. Visão para ganhar é o mais importante

Sem cabeça, sem pernas e sem braços. Esta é a caracterização dos robôs que vão participar no campeonato de futebol especial em Estocolmo. A falta destes elementos não lhe retira, contudo, capacidade para visualizar a bola, tentar apanhá-la e marcar golo - afinal, as características essenciais para uma partida de futebol. Com mais ou menos imaginação no design, equipas vindas dos quatro cantos do mundo vão testar a tecnologia e a cîencia que puseram ao serviço do desporto-rei, sem nunca perder de vista aplicações mais úteis à sociedade, nomeadamente no campo industrial.

A equipa da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), constituída por cinco pessoas, preparou grupos para participar nas duas ligas em competição: a pequena, F-180, e a média, F-2000. Na liga dos pequenos, esta é a segunda vez que concorrem. Na edição do ano passado, em Paris, ficaram em terceiro lugar e foram a melhor equipa europeia - os dois primeiros lugares ficaram para os Estados Unidos e Austrália.

A ideia de participar surgiu em 1997, mas só se concretizou no ano passado, permitindo pôr em prática alguma experiência acumulada na área da robótica. Paulo Costra entrou então em contacto com a organização e conseguiu chegar à team leader da equipa americana, que por sinal é portuguesa, com a qual estabeleceu um intercâmbio de informação.

A única intervenção humana no jogo é a ordem dada para começar a acabar. Nos dez minutos que os «jogadores» estão no campo a tentar marcar golos, toda a estratégia é decidada, no caso da liga F-180, pelo computador ao qual estão ligados. No caso dos robôs médios, todos têm um computador incorporado e comunicam entre si através das placas de rádio.

Para que os robôs pequenos possam jogar uma partida de futebol, existe uma câmara no tecto visualisando o campo e transmitindo a informação ao computador que, sabendo onde está a bola e os adversários, decide o que os «futebolistas» devem fazer. O único ser humano com participação activa no jogo é o árbitro.

A granda aposta da equipa da FEUP é a capacidade sensorial, já que esta terá sido a grande vantagem sobre as outras equipas na edição passada. A qualidade dos algoritmos de decisão e cooperação entre os robôs, ou seja, a inteligência, é também fundamental para determinar a estratégia do jogo. O que conta, claro, é a interligação destes factores. Paulo Costa assinala que «o robô até pode ter uma inteligência superior mas se é ceguinho, não adianta nada».

Outra capacidade importante é a mobilidade e rapidez dos «jogadores». Mas este factor não é tão essencial como, por exemplo, a visão. Na edição anterior, «a equipa japonesa era muito rápida. Mas enquanto eles iam muito depressa contra as paredes, nós andávamos lentamente para a baliza, conta António Paulo Marques.

Além dos jogos, em que os robôs são submetidos a testes muito duros, esta é também a ocasião para uma reunião mundial de comparação de robótica. Dos modelos desta equipa da FEUP já saiu uma aplicação do modo de comunicação e outro para a visão. Segundo Paulo Costa, «toda a tecnologia aqui usada pode ser canalizada para outros projectos», mas esta iniciativa ainda não é conhecida a ponto de as empresas solicitarem as aplicações.

Por outro lado, os investigadores e docentes da FEUP não esquecem a parte pedagógica do projecto. O maior problema é a falta de ajuda financeira para a construção dos robôs. Além do apoio da universidade, os investigadores recebem alguns patrocínios de empresas que podem vir a usar essa nova tecnologia como a MIC, o grupo LPL, a Sonae, a Minfo e a Efacec.

Elsa Costa e Silva




Equipa do IST está confiante
Alunos e professores da ISocRob aperfeiçoaram os seus «jogadores», que, no ano passado, não se portaram nada mal nas competições em Paris

Num campo de novo metros por cinco, pintado de verde e ladeado de paredes brancas de madeira, quatro máquinas que à primeira vista não aparentam a complexidade que lá vai dentro, deslocam-se com própósitos definidos e a velocidades que parecem calculadas. Nos extremos, duas balizadas pintadas de cores diferentes mostram de imediato que o que ali se passa é futebol. Neste caso, futebol entre robôs.

Os dois professores e os oito alunos que integram a ISocRob, a equipa do Instituto Superior Técnico (IST) que concorre com os seus quatro «futebolistas» ao RoboCup99, que hoje começa em Estocolmo, não têm descansado nos últimos meses, de volta das máquinas. Três delas, construíram-nas peça a peça. Programaram-nas e melhoraram-nas laboriosamente. Só um dos «jogadores» foi adquirido com a estrutura externa já feita. Mas foi preciso programá-lo e «treiná-lo» para funcionar em equipa com os outro três. É que nesta classe média, em que concorre a equipa do Técnico, as coisas acontecem como no jogo a sério: os «futebolistas», capazes de comunicar entre si via modem, estão entregues a si próprios e são completamente autónomos em campo. Se algum deles se baralhar, porque algo corra mal na electrónica ou na programação, a única intervenção possível dos «treinadores» humanos, é retirar a máquina «lesionada» do campo. E prosseguir com os restantes.

Mas os treinos em Lisboa correram bem e a equipa está moralizada para as competições. A ISocRob não é, afinal, uma novata nestes campeonatos. «É a segunda vez que participamos nesta taça», explica Pedro Lima, um dos dois professores que dinamizam o grupo do Técnico, sublinhando que a construção e o aperfeiçoamento dos robôs «são tarefas complexas e estimulantes para a investigação».

Tudo começou quando uma ex-professora do IST, Manuela Veloso, que agora está na Universidade norte-americana de Carnegie-Mellon e ali desenvolvou trabalho nesta área, desafiou Pedro Lima e Luís Custódio, também docente e investigador do Técnico, para concorrerem ao RoboCup98, que decorreu no ano passado em Paris. Com um grupo de alunos, construíram as máquinas. E até nem se saíram muito mal nas provas. Num total de 16 equipas, na classe dos «médios», ficaram em oitavo lugar.

Este ano, os «jogadores» vão à liça em Estocolmo com melhoramentos importantes: mais capacidade de «chuto» por parte do guarda-redes, uma nova visão periférica para os defesas e avançados, que lhes advém de um espelho especial colocado no topo, e mais velocidade na movimentação em geral.

Filomena Naves




«Brincar» para aprender com muita ciência à mistura
Receita funciona também na Universidade do Minho

Foi o facto de gostar de usar brinquedos para atrair os alunos que levou Fernando Ribeiro à construção de robôs. A participação no Robocup foi um passo natural para este professor da Escola de Engenharia da Universidade do Minho, que juntou à sua volta alguns alunos interessados em automação e robótica. O resultado foram quatro jogadores-robôs que participam na liga F-2000 (tamanho médio) da competição mundial, em Estocolmo.

A grande vantagem da equipa é, segundo Fernando Ribeiro, o facto de os «jogadores» contarem com um espelho convexo que lhes dá uma visão global do campo. Por ser uma visão de topo, o espelho permite ainda ao robô ver para além dos obstáculos. O processamento de imagem dos «jogadores» é, segundo o investigador, a maior diferença da equipa.

Os jogadores movimentam-se em função das cores: a bola é vermelha e a baliza é azul. Isto significa que não pode existir outro elemento no campo de visão do robô com estas cores durante o jogo. O que poderia levar a situações caricatas como aconteceu durante os treinos: o «jogador» deixou a bola para correr atrás de uma rapariga de calças vermelhas.

O único elemento da equipa quase imóvel é o guarda-redes, que apenas roda à procura do vermelho. Se a bola estiver a cerca de um metro da sua baliza, vai na sua direcção e chuta-a para longe, refressando ao seu lugar.

Estes não são os primeiros robôs construídos pela equipa de Fernando Ribeiro, que já participou noutras competições. E, apesar de ser um grupo recente, tem alguns projectos desenvolvidos com empresas. Quanto às maquinas desenvolvidas para o Robocup, destava várias aplicações possíveis. Como exemplo, aponta a utilização dos robôs nas actividades de segurança dos edifícios e nos hospitais para transportar medicamentos aos doentes. «Há muitas utilizações. O que é preciso é as indústrias tomarem conhecimento.» Por outro lado, os robôs oferecem mais aliciantes para os alunos por combinarem uma apresentação lúdica com disciplinas como a informática, electrónica, a mecânica e a automação. «Isto de lúdico só tem o jogo. Para lá chegar é preciso muita ciência», diz Fernando Ribeiro.

E.C.S.